Quem sou eu?

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Recife, Pernambuco
Poderia dizer que vivo de sonhos, mas creio que são eles que vivem em mim. Arriscaria classificar-me como quixotesca, a cada dia mato meus gigantes para, na manhã seguinte, aperceber-me de que eles não passavam de meros moinhos. Acredito firmemente que as melhores pessoas tem um quê de loucura, manter-se fixo na realidade é enfadonho. O ideal mesmo é tirar os pés do chão e, se possível, aprender a voar.

sábado, 6 de junho de 2015

Cotidiano

Hoje eu te vi acordando pela primeira vez ao meu lado. Teu sono estava estampado em tua face marcada pelo travesseiro. Sorriste, com os cabelos desgrenhados, após um longo bocejo. Pensei comigo como eu era sortudo em ter-te junto a mim. Levantaste e pude ver teu pijama infantil folgado, desgastado pelo tempo. Disse-te como estavas linda aquela manhã e, então, me olhaste com cara de escárnio chamando-me de mentiroso. Em vão tentei argumentar que te dizia a verdade, mas teu olhar me repreendia silencioso. Peguei-te no colo e te beijei preguiçosamente, de um jeito que te fez rir zombeteira. Deitaste em meu ombro, transparecendo genuína empolgação enquanto tagarelavas banalidades e eu observava, deliciado, teu semblante de pura felicidade, sem prestar atenção no conteúdo da conversa – pausaste no meio da frase, te apercebeste da minha aparente desatenção – me olhaste acusadoramente, veneno faiscando em tua íris, fizeste biquinho, aborrecida. Deitaste na cama, como uma criança birrenta. Abracei-te suavemente e te fiz cócegas por todo o corpo. Riste, com deleite. Já não estavas descontente. O despertador tocou, avisando que já era hora de ir trabalhar, e, a contragosto, nos levantamos para começar o dia.
"Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã"
(Cotidiano - Chico Buarque)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Anjo sem asas

Vem aqui, do meu lado, dividir sorrisos repartidos entre muitos lençóis. Vem cá, que eu quero te pegar pela cintura e te mostrar que comigo pode ser diferente. Conheço-te há um tempo, mas para mim ainda não é o suficiente. Quero conhecer-te novamente todos os dias, até o fim dessa vida. Você pode duvidar de mim. Na verdade você tem todo o direito estar receosa, afinal teu coração já foi muito machucado, mas te prometo, garota, que comigo ele está seguro. Não te peço que acredites de imediato, podes duvidar o tempo que for necessário, eu espero, sou paciente. Vou te mostrar, devagarzinho, que sou eu quem pode preencher teus dias vazios. Posso estar contigo do outro lado do edredom. Não precisas estar sozinha, pequena, estarei aqui pra você, sempre. Não entendo nada sobre teus livros, teu mundo de fantasia, ou a utopia que criaste em tua cabeça, mas te prometo que por você eu tento. Tento entender essa tua cabecinha tão cheia de ideias e tão distinta da minha. Eu sei que somos muito diferentes, mas isso não precisa ser um problema, pode ser uma nova oportunidade. Nossos universos podem ser completamente diversos, mas nós podemos criar um novo, só nosso. Sei que estás assustada, querida, mas deita aqui no meu ombro que tudo vai passar. Todas as coisas passam amor, os segundos, os minutos, as horas, tudo se cura com o tempo. E hoje é tempo de recomeço pra você e pra mim.


"Eu vim pra ser seu anjo
Pra lhe proteger
Do céu de onde eu desci
Eu vim cuidar de você"
(Um anjo muito especial - Roupa Nova)

sábado, 25 de abril de 2015

Pseudo-vida

Ele olhou-a, com aqueles grandes olhos risonhos, cor de avelã. Ela se perdeu em seu olhar, absorta com tamanha doçura. Tocou-lhe a face cansada, observou suas rugas de preocupação aparentes, caminhou por seu rosto, sentindo, com os dedos, os vincos que os anos haviam esculpido em sua fronte. Apesar de tudo, ele ainda era o homem mais bonito que ela havia visto. Não por sua aparência, mas havia algo em sua maneira, em seu jeito, que o tornava diferente de todos os outros que já havia conhecido. E ela ansiava, cada vez mais, torná-lo feliz. Talvez por isso inquietava-se tanto. Queria fazê-lo sentir-se completo a todo custo, não importando o que tivesse que fazer para alcançar isso. Afinal – pensava ela – os fins justificam os meios. E, com essa visão maquiavélica, de certa forma grotesca, vivia sem viver, um dia de cada vez. Até que por fim, ele cansou-se dessa realidade burlesca que ambos dividiam. E, com uma única lágrima partiu. Ela, então, abaixou-se outra vez, para juntar, aos poucos, os caquinhos de seu coração esfacelado.

 

"Em algum lugar, em toda aquela neve, ela via seu coração partido em dois pedaços".
(A menina que roubava livros - Mark Zusak)

sábado, 21 de março de 2015

Sobre amores repentinos.

Chegaste devagar, a passos silenciosos. Nem percebi o momento que começaste a passear pelos meus pensamentos. Quando menos esperava estavas ali, à espreita, e por mais que tentasse tirar-te de lá, não conseguia. Passaram-se as estações, ameaçavas perigosamente viajar da minha cabeça ao coração, e isso eu não desejava, pois cada pessoa que passou por ele deixou-o em frangalhos. Meu peito respondia a cada tentativa tua de adentrar em meu interior: vá embora, vá embora, vá embora. Não atendeste à minha súplica. Foste ficando, ficando, e ficou.


"Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, amo-te simplesmente sem problemas nem orgulho: amo-te assim porque não sei amar de outra maneira."
(Pablo Neruda)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Carta a um desconhecido

Vem abrir as portas do meu coração há muito lacradas com força. Arranca essas correntes que me prendem ao solo, ensina-me a voar novamente. Sussurra baixinho, ao meu ouvido, que meus medos são apenas bobagens de uma alma transtornada. Abraça-me, tu bem sabes como isso me faz bem. Beija-me com a doçura de um jovem apaixonado, enlouquecido pelos desejos ardentes que te controlam por completo. Olha-me nos olhos com ternura. Ria, meu amor, sim, sorria, pois não existe nada no mundo mais lindo que o seu sorriso. Dancemos à luz da lua, sem música, somente ao som dos nossos corações, que batem no mesmo compasso. Eu e tu, tu e eu, nós. Viajemos, sem data, sem destino, sem hora pra voltar. Façamos um piquenique, alimentemo-nos da nossa companhia. Tu me dirás que sou boba por amar-te tanto assim, que não mereces tanta admiração, te responderei com simplicidade que és a melhor pessoa do mundo. Passemos os dias assim, nesse vaivém cotidiano, sem nunca, porém, entrar em uma rotina. Transformemo-nos em novas pessoas, amando, cada vez mais, quem estamos nos tornando. Que a nossa paixão seja contínua e o nosso amor ininterrupto. E, quando já velhinhos a morte nos vier buscar, não temas meu amor, não chores, caminhemos ao seu encontro de mãos dadas, como sempre o fizemos.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Manchete

Encarei o jornal perplexo, na primeira página, escrita em letras garrafais, lia-se a seguinte frase: assassinaram a inspiração. Desafortunada seja! Costumava sentar no meu colo e contar-me uma história. E que imaginação tinha! Sussurrava palavras ao meu ouvido, ela falava e eu escrevia, num vaivém melódico, hipnótico. Vinha todo fim de tarde, presenciava as minhas epifanias. Mataram-na, matou-a, matei-a.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Confissões de um viciado

Bebi, não nego. Embriaguei-me com o gosto pungente de uma cachaça chamada poesia. Como em uma metástase vi meus órgãos serem tomados lentamente pelas palavras, de modo arrebatador, até por fim chegar ao coração. Vi florescer a rosa de Vinícius, observei o amor ensandecido de Drummond, e até Poe (louvado seja!) me fez viajar nas asas de um corvo, que com o tempo passei a apreciar, simplesmente pelo mero fato de ele ser fruto da escuridão. Augusto dos Anjos me fez perceber que tal como um morcego em uma janela, a consciência humana passa a noite a nos atormentar e nossa vontade, como indivíduos ignorantes, é simplesmente defenestrá-la, fingir que ela não existe e inventar uma utopia. Garrafas e garrafas de versos. Garçom, pode repetir a dose? Talvez um dia eu venha a morrer de cirrose. Cirrose de poemas existe? Não sei, não me importa. Overdose, convulsões de uma alma embevecida pelas letras. Morte. Na lápide uma frase: aqui jaz um bêbado poeta.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Preuve de l'existence de Dieu

E às vezes vem aquela sensação, de paz, alegria e serenidade inexplicáveis. Levanto os olhos, ponho as mãos sobre o peito e respiro fundo. O universo é maravilhosamente encantador, deliciosamente misterioso. Sinto um arrepio profundo, olho para as minhas mãos. Observo atentamente tudo ao meu redor. E finalmente vejo o quão perfeito é o mundo. Bastam apenas esses pequenos fenômenos para convencer-me que Deus existe.



"Deus não é intelecto, mas a causa do intelecto. Deus não é o sopro, mas a origem do sopro. Deus não é a luz, mas a causa da luz. Ele é o espaço que se contém a si mesmo. Incorporal, incapaz de erro, impassível, intangível, imutável."
(Hermes Trismegisto, séc. 3 d.C).

sábado, 26 de novembro de 2011

The curse of the time

E existem momentos nos quais a dor se torna insuportável e é necessário sentir o toque do ser amado para atenuá-la. E quando essa pessoa não está? A dor fica aí, machucando cada vez mais o coração da pobre desgraçada, que sofre por amor reprimido. Amor intenso, profundo, delirante e eloquente, mas que não pode ser demonstrado por obra do destino. O tempo é um ordinário que serve apenas para enlouquecer os que esperam, ansiosos, por algo. E as manhãs se tornam longas, e os dias se transformam e o que deveria passar não passa.


De que são feitos os dias? 
- De pequenos desejos, 
vagarosas saudades, 
silenciosas lembranças. 

Entre mágoas sombrias, 
momentâneos lampejos: 
vagas felicidades, 
inatuais esperanças. 

De loucuras, de crimes, 
de pecados, de glórias 
- do medo que encadeia 
todas essas mudanças. 

Dentro deles vivemos, 
dentro deles choramos, 
em duros desenlaces 
e em sinistras alianças...
(Cecília Meireles)


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Encontro...

Quiçá um dia voltemos a encontrar-nos. Pode ser que em algum momento nossos caminhos se cruzem. Talvez, e só talvez, você me olhe ternamente. Um olhar profundo, que remova as minhas dúvidas, as minhas indecisões, os cataclismas da minha mente. Um olhar doce, sorridente. Olhando-me assim, você tomará minhas mãos entre as suas e sussurará algo. E eu ficarei meio tonta, indubitavelmente boba, completamente inerte. Minha razão desaparecerá por completo, como se nunca houvesse existido. E um sorriso se formará lentamente em minha boca, um sorriso sincero, esperançoso. E tudo o que passou será esquecido. Abrirei os braços, receptiva. Não me sentirei tão viva até que chegue esse momento. 

"A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"
(Vinícius de Moraes)